Como Plantar Um Penedo (2022)
/ How to plant a rock 



CCVF (Guimarães, PT)

Exposição Coletiva / Group Show



Texto/ Text : Juan Luis Toboso

(...) Porque tudo começa buscando entradas possíveis, não só o interior da floresta que habita o território, más também, em direção á forma como ela nos tem sido narrada ao longo do tempo. Isto é: desde a segunda metade do século XX a floresta que atualmente envolve a paisagem do Monte da Penha em Guimarães foi fabricada por vegetação, que de forma humanamente deliberada construiu uma densa mata arborizada tal como a conhecemos hoje. Já temos aqui uma possível entrada. Um lugar onde se acumulam as fantasias, lendas e imaginários de onde partimos para continuar plantado mais alguns relatos que se misturam com aqueles que temos vindo a ouvir até o momento.



(...) A memoria é frágil, moldável, ondulante, intermitente e Diana Geiroto solicita deambular por este solo de incertezas atravessando as camadas que se sobrepõem à luz da elucidação. È  possível tornar nossa memoria em algo claro ou compreensível? Algo que se transforma da experiência da subjetividade está aqui a ser cuidadosamente questionado mediante a abertura de ferimentos, riscos e inscrições. As imagens que guardamos na nossa memoria estão sujeitas a serem riscadas rescritas e desconstruídas porque o nosso arquivo mental pode ter ficado colapsado em suspensão. Um estado de excessiva certeza de saber o que se é sem flexibilidade de assumir o erro. Uma negação da elástica variável que como corpos minerais, animais, vegetais...queremos questionar para nos aproximar a formas informes. (...)



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(...) since the second half of the twentieth century the forest that currently surrounds the landscape of the Monte da Penha in Guimarães was manufactured by vegetation, which in a humanly deliberate way built a dense wooded forest as we know it today.

(...) Memory is fragile, moldable, undulating, intermittent and Diana Geiroto requests to wander through this soil of uncertainties, crossing the layers that overlap the light of elucidation. Is it possible to turn our memory into something clear or understandable? Something that is transformed from the experience of subjectivity is here to be carefully questioned through the opening of wounds, scratches, and inscriptions. The images we store in our memory are subject to being scratched, rewritten and deconstructed because our mental archive may have been collapsed into suspension. A state of excessive certainty of knowing what one is without the flexibility to assume the error. A denial of the elastic variable that as mineral, animal, vegetable bodies... we want to question in order to approach informal forms. (...)














Whether the Weather (2021)

IGUP (V.N. Gaia)

Exposição Coletiva / Group Show



Texto/ Text : João Terras

(...) O único lugar que se procurou escapar da luz foi para ali se instalar a conversa de Diana Geiroto. Toda a vida conversamos com o desconhecido, e por instrumentos, meios, guiões, regras, práticas, documentos, continuamente à procura de padrões, repetições e conclusões, Diana Geiroto optou por uma conversa com esse profundo lugar de vazio e desconhecimento. A imagem, sugerindo os campos gravitacionais dos buracos negros, seja qual for, espaços de uma indecifravel composição espaço-temporal. Trata-se do tratamento de uma série de imagens de um satélite específico, unida a uma leitura de um protocolo; na verdade a artista não conversa, mas a instalação-vídeo que apresenta torna-se numa, na penumbra de uma imagem que nunca se chega a revelar. 

Ao mesmo tempo que são veículos de vigilância, instrumentos bélicos, órgãos de controlo e monitorização, os satélites são também esse olhar de ave, microscópico à escala do universo, possibilitando um ficcional acesso às razões do espaço. 

Ao ver, neste por fim de circuito, a instalação, lembro-me de que, o lugar da arqueologia é o mesmo do da astronomia, o lugar por debaixo da terra é da mesma profundidade escura e inacessível que o do céu, espaço. Trazer à luz é o mesmo que adivinhar o que está no escuro. (...)



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(...)  The only place that escaped light was to install Diana Geiroto’s conversation there. All our lives we talk to the unknown, and by instruments, means, scripts, rules, practices, documents, continuously looking for patterns, repetitions and conclusions, Diana Geiroto chose  a conversation with this deep place of emptiness and ignorance. The image, suggesting the gravitational fields of black holes, whatever they are, spaces of an indecipherable space-time composition. This is the treatment of a series of images from a specific satellite, coupled with the reading of a protocol; in fact the artist does not talk, but the video-installation she presents becomes one, in the shadow of an image that is never revealed.

At the same time that they are surveillance vehicles, war instruments, control and monitoring organs, satellites are also this bird’s-eye view, microscopic at the scale of the universe, enabling a fictional access to the reasons for space.

Seeing, at this end of the circuit, the installation, I am reminded that, the place of archeology is the same as that of astronomy, the place underneath the earth is of the same dark and inaccessible depth as that of the sky, space.  Bring to light is the same as to guess what is in the dark. (...)













Pontas Duplas (2021)

GALERIA PRESENÇA (Porto, PT)

Exposição Coletiva / Group Show



Curadoria e Texto / Curatory and Text:
Aida Castro



As pontas duplas aparecem quando a cutícula, que é a parte exterior do fio, está danificada ou ressequida. As pontas duplas são cabelos espigados, cujas extremidades abrem: a partir-se em dois, três ou mais. Split ends, tradução do termo, também indica a estratégia de dobrar os fins, de os fintar e de os multiplicar para que não se fechem unívocos. Split é um termo vulgarmente utilizado para tornar um ecrã, no mínimo, duplo. Nesta exposição foram reactivadas pontas duplas encontradas no percurso da Galeria Presença e no trabalho dos artistas que representa, que de novo se instalam através da ocupação dos objectos convocados para o espaço. Esta prática de montagem permite ainda imaginar outros encontros artísticos que inventam novas ligações. Quer dizer, DUPLAS.

( ...) O trabalho de Diana Geiroto Gonçalves montou-se, quer dizer, as peças que colecta no atelier são participantes da actividade de um depósito contínuo e sofrem várias torções físicas até chegarem ao espaço, à parede, à prateleira e ao chão. É a precisão das mutações incididas que os tornam agudos e materialmente discerníveis. A posição que optam deriva de uma tensão dos limites da objectualidade inventada e dos seus fenómenos porvir: Validating your Mouth Shut (2020), um aziar como relicário. E a verticalidade de um tronco Destorcer. Distorcer (2018), um completo artifício.


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(...) Split is a term commonly used to make a screen at least double. In this exhibition, double ends found in the course of Galeria Presença and in the work of the artists it represents have been reactivated, and are again installed through the occupation of the objects summoned to the space. This practice of assemblage also allows us to imagine other artistic encounters that invent new connections. That is, DUPLES.

(...) Diana Geiroto Gonçalves’ work is assembled, that is, the pieces she collects in her atelier are participants of the activity of a continuous deposit and suffer several physical twists until they reach the space, the wall, the shelf and the floor. It is the precision of the incident mutations that make them acute and materially discernible. The position they opt for derives from a tension of the limits of invented objectuality and its future phenomena: Validating your Mouth Shut (2020), a aziar as reliquary. And the verticality of a Destorted log. (2018), a complete artifice.










Ser e Parecer (2018)

Excerto de Texto integrado no relatório de Projeto de Mestrado (FBAUP)


18. Aparecer) - Das coisas que parecem outras ao toque.

Exposição e Residência Individual / Solo Show and Residency
Casa da Imagem (V. N. Gaia)

Em 2015 comecei pontualmente a produzir alguns objetos, coisas que com o tempo e a convivência própria de quem ocupa por muito tempo o mesmo lugar, percebi que sugeriam a sensação de outras coisas, de matérias que não estão lá. Nomeei este pequeno conjunto de objectos de “coisas que parecem outras ao toque”, consciente de que esta era uma colecção por encerrar, um projecto expandido, do qual poderiam surgir mais coisas que parecessem outras.

Esta pequena colecção começou com toque, a sensação física, táctil das coisas contra o corpo. Coisas como a sensação fria do metal, mesmo quando é corroído, por muito que a sua imagem quieta e cuidadosamente disposta evoque a quentura do veludo. (...) Começou, portanto, com a ilusão da imagem a que escolhemos aderir e com a falha dos sentidos. Mas esta ilusão não se revela somente pelo o toque, também pelas as palavras, no exercício de nomeação: que nomes escolhemos dar à mesma coisa para a reconhecer, para a distinguir, para lhe conferir ou retirar sentido, para a contradizer?

Catalocar uma colecção, nomear, criar universos por afinidade, posicionar, aparecem então como gestos primitivos de reconhecimento. Seguem-se outros, aparentemente opostos - segregar os objectos, escondê-los, renomeá-los, enxertá-los, levá-los de um sitio para o outro, para ocuparem espaço num outro lugar, como um teste sucessivo (...) que denuncia uma temporalidade processual inerente ao fazer e ao dizer, uma temporalidade com a qual me cruzo apenas num intervalo - que é o da co-existência.

Deste 2015 o trabalho têm-se construindo precisamente desta forma, como fenómenos de ocupação. Projectos-momentos, que se interligam enquanto derivações uns dos outros, numa sequencialidade que se determina por consequência. (...) Não se encontrou uma resolução como finalidade. Não se procura a coesão temática ou gramatical, nem mesmo a coerência. As similitudes encontram-se de outra maneira, por afinidade, por contraste, no diálogo, por tentativa e erro.

Contradiz-se, mas só para que não se desconsidere nada, nenhuma hipótese, nenhuma possibilidade. A contradição é aparente. E a aparência surge da imagem estacionária das coisas, da formalização efémera da forma, da definição do nome e da sua variação. E, se é aparência, é também aparecer, o revelar de uma camada que se materializa como um manifesto da presença. E, pela negação como possibilidade dentro da coisa, é desaparecer, é ocultação, o retirar-se de um plano para um outro. As coisas parecem outras por inquietação de si. As coisas dão-se ao toque para poderem ser outras coisas.












The Missing Revolution (2017)

Maus Hábitos (Porto)


Nota prévia de intenções para o projecto The Missing revolution: To go around, not to go Back. Maio 2017


Exposição e Residência Coletiva / Group Show and Residency

Did we miss the revolution? Or is the revolution missing? A sede efémera do colectivo efémero. E de todos aqueles que se queiram juntar. O centro de operações, a base de trabalho onde se podem desencadear propostas, planos de acção, discussão. Um espaço habitado. Esta sede aparece como uma espécie de residência temporária, a partir da qual se poderá operar um conjunto de mecanismos, descobertos e pensados em colectivo, que potenciam a troca de ideias, o mais ampla possível. Por esse motivo, mais do que pensar um objecto concluído, expositivo, parece-me fazer sentido ocupar a sede ao longo do mês de residência e explorar estes dispositivos de troca e difusão de informação.

O habitar a sede parte da própria noção revolução - enquanto eixo e volume - que permite o movimento em torno de qualquer coisa para que esta tenha força vital para ser activa. Ou é o próprio eixo-geratriz que possibilita a concretização dos corpos. Na relação presença–coexistência com o espaço sede, esta ideia de circulação em torno de é particularmente importante. A produção em grande escala, mas que se mantém bloco palpável, cuja existência e mutabilidade depende que quem e do que o circunda.

Se, numa fase inicial, a fotocopiadora me preocupou pela sua utilização panfletária e propagandista, com o decorrer das conversas colectivas, foi precisamente o elemento que se tornou mais fulgurante no pensar a palavra, a imagem, o volume e o plano de acção. O papel enquanto parte de um todo (resma/bloco), uno e múltiplo ao mesmo tempo. A ideia dos blocos, objectos sólidos e com corpo que se podem desvanecer à velocidade da difusão da informação. Interessa-me explorar o múltiplo e perceber até que ponto a mensagem (imagem, palavra, seja o que for) ganha força ou perde sentido, na sua repetição. Interessa-me, também, perceber até que ponto esta ideia de cartaz-flyer-desenho-objecto que fica será ou não levado, folha a folha, e se estes volumes se tornam variáveis por isso mesmo.

A informação selada, a censurada e a que é seleccionada. Tudo aquilo que é dito, mesmo que se repita.






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